Não mais trincheiras adolescentes, eles se assumem como território da nova cultura brasileira
Foi-se o tempo em que os festivais independentes de rock espalhados pelo Brasil eram uma trincheira de resistência adolescente local, cheios de bandas obscuras e movidos a rock barulhento e testosterona esguichando. Tudo bem, ainda há esses festivais “machos”, dos quais o veterano Goiânia Noise, que chegou em novembro à sua 15ª edição, ainda é o melhor exemplo - apesar do notável amadurecimento. O fato é que o circuito de festivais têm se transformado aos poucos em um roteiro variado e inteligente, com uma produção profissional e esmerada, e também um celeiro das melhores bandas do Brasil.
Foi o que mostrou uma circulada pelos festivais do segundo semestre do ano passado, como o Porão do Rock (Brasília), Contato (São Carlos, SP), Jambolada (Uberlândia), Calango (Cuiabá), DoSol (Natal), Se Rasgun (Belém), Macondo Circus (Santa Maria, RS) e o próprio Goiânia Noise. Somam-se a esses outros festivais emergentes e caprichados da região norte, como o Varadouro (Rio Branco, no Acre) e Quebramar (Macapá, no Amapá), e uma mostra como a da Feira de Música de Fortaleza, que investe nesse mesmo perfil de bandas novas e discussões espertas e necessárias.
O prefeito Oswaldo Barba, de São Carlos, é um entusiasta desse processo da valorização artística, social e política do perfil dos festivais: “O Contato foi criado na Universidade Federal de São Carlos, quando eu era reitor. Agora, como prefeito, tenho orgulho de que, nesta terceira edição, ele pertença cada vez mais à sociedade, não à Universidade. As apresentações e oficinas vão para os bairros, para toda a cidade. Eu estou entusiasmado com a participação da população em geral - afinal é um festival multimídia de rádio, tv, cinema e arte eletrônica, com essa cara tecnológica da juventude”.
Ana Morena, que toca baixo na banda Camarones e produz o festival DoSol com Anderson Foca, investiu já pelo segundo ano consecutivo no Música Contemporânea, uma extensão do festival realizada em um auditório tombado de Natal, com bandas mais experimentais. “Estamos pagando esse prolongamento do nosso próprio bolso; as apresentações são gratuitas. É um jeito de reinvestir a credibilidade desses 6 anos do DoSol na formação de um público mais curioso”. Com a agradável sala do Teatro da Ribeira cheia por cinco noites consecutivas, o DoSol Contemporâneo teve grandes shows, como o do Eu Serei a Hiena (SP), d’A Banda de Joseph Tourton (PE) e dos locais SeuZé e Simona Talma, com condições excelentes de som e registro profissional em vídeo.

Cláudio Prado, no Fórum da Cultura Digital: em busca do "momento mágico" contracultural (foto Victor Sá)
Já no quinto Jambolada, a parceria foi com o coletivo Literatura Subsolo, que produziu clipes literários e intervenções poéticas entre os shows. Seria um contrassenso num festival que teve o Sepultura? Não, já que um dos vocalistas da banda anfitriã Porcas Borboletas, Danislau Também, é poeta com livro publicado (O Herói Hesitante) e artista performático. “O rock surgiu libertário; não faz sentido identificá-lo com algum tipo de limite ou preconceito estético. E o público de Uberlândia sempre responde muito bem a essas provocações”, diz ele.
Outra performer do circuito é Cláudia Schulz, do coletivo que organizou o sexto Macondo Circus, onde a relação mais estreita é com o teatro e as artes visuais. “Nós temos a Cia. Teatro de Bolso, que preparou uma programação de fragmentos teatrais para interferir no coração de Santa Maria, nos shows da praça”. As webperformances de Cláudia podem ser acompanhada on line no seu site Dramaturgia da Carne (http://dramaturgiadacarne.wordpress.com/). Essa experiência teatral vai ser expandida nacionalmente: “No festival Fora do Eixo, previsto para abril em São Paulo, além do Macondo, o pessoal de teatro ligado aos coletivos Enxame (Baurú) e Colméia (Araraquarara) também estão preparando três dias de intervenções - em praça pública, na frente das casas participantes ou talvez mesmo nos palcos, entre as apresentações”, conta Cláudia.
Essa ausência de preconceito é explícita no Se Rasgun no Rock, que chegou à sua quarta edição como um bastião da exuberância musical local e nacional. “Belém não é uma cidade que se possa segmentar, é muita diversidade. Isso influenciou o nosso enfoque de programação”, diz um dos diretores, Marcel Arêde (o outro é o jornalista Marcelo Damaso). “Seja tecnobrega ou o rock do Matanza ou o carimbo Pinduca, nosso público tem mostrado nesses anos que pode aproveitar, sem restrições”. É verdade: o show do carimbozeiro Pinduca no último Se Rasgun, assim como o tecnobrega da Gabi Amarantos, foi (muito) apreciado pelo público como qualquer outra atração pop, sem soar como piada musical.
Heluana Quintas, do festival Quebramar, do coletivo Palafita e da banda Mini Box Lunar, de Macapá, acha que nos últimos anos os festivais de rock se transformaram em “festivais de comportamento”. “O Quebramar está só no segundo ano. Mas já é produto dessa visão de que podemos intervir na realidade como um todo, politicamente, economicamente, socialmente. E de não encarar o festival apenas como uma trincheira estética sectária, o que era o problema dos festivais menores. Ou só como um negócio, o que era o problema dos festivais grandes”.
Essa busca de um novo formato também teve impacto na quinta edição do Festival Varadouro, em Rio Branco. Pela primeira vez, o local dos shows refletiu uma intenção ambiental: uma clareira do parque Amazônia Rio, com um paredão de mata atrás dos palcos e uma linda curva do rio Acre em uma das laterais. Com a lua iluminando a cena, artistas de enfoque urbano underground como o Cidadão Instigado e Guizado, ou festivo como os Móveis Coloniais de Acajú e Curumin, encontraram uma locação fantasticamente sugestiva. As bandas instrumentais também chamaram muito a atenção: a local Caldo de Piaba fez a linha festiva, e o paraense Floresta Sonora (com participação de Kayapy do Macaco Bong) a experimental, completando a trilha sonora do Varadouro.
Toda essa diversidade é uma novidade? Não exatamente, segundo um observador atento, o produtor Pena Schmidt, hoje superintendente do Auditório Ibirapuera (SP). “É uma movimentação que me lembra a contracultura americana do final dos anos 60. Estou pensando nos Yippies do Abbie Hoffman… no sentido de que isso surge da música mas não é um estilo musical. Mas também não é uma plataforma política precisa. É mais um viveiro de experiências”, tenta definir Pena. “Exatamente quando parecia que só nos restava o shopping center, em 2004, eu estive no espaço Cubo em Cuiabá, e eles já tinham aquela moeda complementar (o CuboCard), já tinham o raciocínio associativo… Tio, eles tinham uma biblioteca! O que aqueles punks estavam fazendo com livros? É um sonho utópico” (risos).
A percepção da importância desse circuíto começa a empolgar outros atores e organizações sociais. O Fórum da Cultura Digital, organizado em novembro em São Paulo pelo Ministério da Cultura e a Casa da Cultura Digital, escalou para uma das três noites de shows na Tenda Rógério Duprat uma mostra Fora do Eixo, com Macaco Bong, Porcas Borboletas e Caldo de Piaba, mais o convidado Lucas Santtana. E, na segunda noite, ao lado do Teatro Mágico e do trio espanhol Tarantula, o Mini Box Lunar roubou o show em uma empolgante apresentação ao lado de Jorge Mautner. “Era o momento mágico que eu estava esperando”, comemorou Cládio Prado, curador das apresentações. Prado, que recentemente foi coordenador de políticas digitais do Minc, e no final dos anos 60 e começo dos 70 foi anfitrião de Caetano e Gil no exílio em Londres e produtor dos Mutantes e dos Novos Baianos, também enxerga no circuíto a atualização de valores da contracultura.
Quanto ao Goiânia Noise, após mais uma edição repleta de “rock de roqueiro” (como gosta de dizer Fabrício Nobre, da ruidosa banda MQN e um de seus idealizadores), qual teria sido a melhor apresentação? Entrevistados em dezembro em Recife, durante a Feira da Música Brasil, Nobre e seu sócio no Noise e no selo Monstro, Léo Bigode (os outros sócios são Márcio Jr. da banda Mechanics e Léo Razuk), entram em uma inusitada discussão: se o melhor show foi o de Hermeto Pascoal, ou o do rabequeiro Siba e do violeiro Roberto Correa!
Considerando que o festival construiu sua reputação em oposição à milionária cena sertaneja da cidade, só essa dúvida já não seria uma traição do movimento (risos) ? Léo afirma que essa noção do festival ser só do rock pesado é uma caricatura: “Aqui já tivemos Loop B, Kassin, Cordel do Fogo Encantado, Do Amor, um monte de gente que não é exatamente do rock… a verdade é que temos um pezinho no maculelê” (mais risos). “Pensando bem”, escapa Fabrício, “o melhor show do Noise neste ano foi a palestra do Martin Atkins” (ex baterista do PiL, Killing Joke, NIN e Ministry). Baseada em seu livro de dicas de “autoajuda” na produção de rock, Tour:Smart, a performática palestra de Atkins não deixou de tocar no ponto nevrálgico: a máquina de marketing da indústria musical, tal como existia, desapareceu. E o que vale agora é a inteligência flexível, a criatividade incansável e a sinceridade artística.
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Massa galera! texto fodástico mestrão!
Espetacular a matéria sobre o circuito e o crescimento
de movimentos culturais em forma de coletivos e fests…
É realmente a salvação pra galera independente.
ô professor
texto IMPORTANTE, cara
acima de tudo, importante
parabenzão.
e outra: o nagulha tá masssa!
abração
bacana,curti a ideia!
http://www.matouafamiliaepostounoblog.blogspot.com
Belo texto. Proporciona uma vista panorâmica dos festivais em escala ampla, abrangente, e, acima de tudo, captura bem a tendência da cena independente em alargar o foco, incluir novas linguagens e romper com uma certa ortodoxia roqueira que já foi regra.
O Nagulha tende a ser leitura obrigatória para quem quiser situar-se neste caos saudável da nova cena cultural do país.
Excelente texto!
Meu plano é conhecer cada um desses festivais com meus próprios olhos e ouvidos!
Fiquei extremamente curioso pra assistir a palestra do Martin Atkins tb!
belo recorte!
Engraçado é que o crescimento é notorio e teoricamente o abril pro rock desce a ladeira, nao sobe.
Digo teoricamente porque talvez nos ultimos anos os shows foram os melhores possiveis, ja o publico decepcionou, comparado a edições anteriores. Acho que so o motorhead teve realmente um sucesso…
Qual seria o perfil do publico pernambucano?!
Bela materia!