Um cordel em desencanto

614 views | 02.03.2010 | 16h23 | Por Bruno Nogueira |
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A trajetória de uma das maiores bandas do país

Lirinha em apresentação com o Cordel (Foto: David Campbell)

Eu fui apresentado a Lirinha pelo menos umas quatro vezes. Duas delas por iniciativa própria para alguma entrevista. Outra vez foi por Otto, em um bar em São Paulo e, na outra, pelo produtor do Cordel do Fogo Encantado, Gutie. Sempre tive a impressão de que se esbarrasse com ele outras 15 vezes, seriam necessárias outras 15 apresentações. Lirinha já chegou naquele estágio onde o artista vive em um mundo onde existe sua criação artística e as pessoas que cruzam seu caminho. Tentar entender o que o fez levar ao encerramento da banda seria penetrar em uma fortaleza que poucos tem acesso.

O Cordel do Fogo Encantado que encerrou as atividades não é exatamente o mesmo grupo que Lirinha iniciou com os amigos Clayton Barros e Emerson Calado em 1997, na cidade de Arcoverde no interior de Pernambuco. Naquela época, a reunião de amigos tinha como finalidade o teatro. E a apresentação, que foi batizada com o nome da banda, sequer tinha percusão. A transformação veio na virada do século, quando o Cordel se apresentou no festival Rec-Beat. De lá para cá, fizeram a transição entre mundos e passaram a lançar discos e conquistar prêmios de música.

Observado agora com certa distância, dá para perceber como tudo aconteceu muito rápido. O Rec-Beat foi em 1999 e, em 2001, eles estavam em estúdio com Naná Vasconcelos para gravar “O Palhaço do Circo sem Futuro”. Em dois anos já não eram mais um grupo teatral exótico que aparecia no Carnaval e estavam acompanhados quase que inteiramente por instrumentos percussivos. Naquele mesmo ano, perdiam o status de “revelação” para o ganhar o prestígio de fenômeno. O segundo disco do Cordel transformou eles imediatamente na banda desconhecida mais famosa do país.

Poucas bandas em todo o Brasil representam tão bem o conflito do sucesso. Com o primeiro disco (homônimo), eles tiveram lá suas matérias esporádicas em jornais locais, mas o Cordel do Fogo Encantado, em toda sua trajetória, jamais foi o que podemos chamar de fenomeno midiático. Não estão nos programas de TV, nem tocam nas rádios, menos ainda em revistas de música ou adolescentes. Se você conhece um “formador de opinião”, existe uma grande chance da opinião dele ser negativa ao trabalho de lirinha. Curiosamente, o sucesso de público da banda é inversamente proporcional ao gosto da crítica por eles.

Mesmo sem esse apoio – que ajudou bastante os vizinhos da época, como a Nação Zumbi – as apresentações do Cordel do Fogo Encantado se tornaram sinônimo de show lotado. O apelo chegou a ser místico. Quem estava lá, dizia que quando ele invocava a chuva, ela caia do céu. E que apenas sua expressão exagerada misturando suor com pancake conseguia explicar as agruras de ser um palhaço de um circo sem futuro. Poesia e teatralidade deram o encanto ao fogo do Cordel. E, de alguma forma, isso funcionou.

Voando alto

Se o tempo fosse acelerado com em uma fita de vídeo, seria capaz do começo dos anos 2000 passar e ninguém perceber o estouro do Cordel. Essa transição do teatro para a música, do palco para o estúdio, do diretor de cena para o produtor musical e a transformação de um espetáculo em disco acontecem em pouco menos de dois anos. E em 2001, a banda já parte para a primeira turnê internacional, passando por Alemanha e Belgica, onde chegaram a tocar para um público de 5 mil pessoas.

Lirinha, na época com apenas 24 anos, foi responsável por apresentar a Europa ao Reisado, o Toré e o Samba de Côco. A pose de messias que carregava para o palco, que já estava presente nessa primeira fase da banda, precisou ser contido para não transformar a apresentação em uma Torre de Babel. As poesias mais longas do Cordel, que chegavam a ter quase seis minutos de recital, foram cortadas para não causar estranhamento ao público gringo. E isso acabou afetando o retorno dessas composições ao Brasil. Mal surgida, a banda já sofria pressão para um formato mais pop.

A volta dessa turnê foi um longo período de celebração para o Cordel do Fogo Encantado. Agora, com a força do público, o disco “O Palhaço do Circo Sem Futuro” passou a ser premiado pela Associação Paulista de Críticos de Música (APCA), Caras (2002), Tim (2003), além de outras premiações menores, como os troféus Qualidade Brasil, BR-Rival e Hangar (esse em dois anos seguidos, 2002 e 2003). Foi o momento de colher. A banda passou a aparecer em trilha sonora de filmes como Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues e Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes.

Os prêmios e a projeção foram sucifientes para dar uma longa sobrevida a temporada que a banda passou a encarar em São Paulo. O Cordel do Fogo Encantado deixou a pequena Arcoverde com seus 70 mil habitantes para fixar residencia na maior metropole da América do Sul. Poucos artistas conseguem segurar três a quatro anos de carreira com um único disco, depois que a velocidade do consumo aumenta após os anos 2000. Mas o tempo passava em ritmo diferente para o Cordel.

Essa certa paz que eles desfrutaram é quebrada quando a MTV Brasil decide lançar o título MTV Apresenta com o Cordel. O produto deveria cair como uma luva para uma banda tão visual, mas angustiou um público que estava sedento por mais. Assim como “Palhaço do Circo Sem Futuro”, a recepção do DVD é grande, mas ele tinha efeito retroativo. Mostrava um período do grupo que já tinha passado e trazia poucos apontamentos sobre que caminhos eles estavam para seguir.

Talvez o DVD tenha ajudado uma certa estranheza que acompanhava Transfiguração, o enfim segundo disco que o Cordel lançava em 2006 com patrocínio da Petrobras. Agora adequados a necessidade de um mercado de música, Lirinha e Cia precisaram pensar no disco e nas músicas antes, para pensar no espetáculo e no show depois. A produção de Carlos Eduardo Miranda reforçava essa necessidade de que dali era preciso sair um produto, antes de qualquer coisa, musical.

Transfigurado

Respondida a angustia por mais músicas, o Cordel do Fogo Encantado não acelerou seu processo criativo apenas para justificar o disco. As músicas eram inéditas para todo o público, com exceção de Morte e Vida Stanley, que fazia parte do repertório de shows anteriores. Mas na terceira apresentação de Transfiguração – que começou em Brasília, passou para o Rio de Janeiro e, só então, para Pernambuco – o grupo ainda não estava certo sobre cenários e elementos cenicos que estariam presentes no novo espetáculo. A única certeza era o mote que carregava nas letras, que falavam do transito entre interior e metropole, algo que passou a fazer parte do cotidiano do grupo.

Mesmo com um espetáculo inteiro para pensar, no mesmo ano que lançou o novo disco Lirinha fez sua estréia como ator de cinema. Ele está em Arido Movie de Lírio Ferreira. Dessa vez, o lançamento do disco coincidiu com o extremamente elogiado Futura, da Nação Zumbi. Talvez o calendário de uma tenha ajudado a ofuscar um pouco da outra, já que a banda vizinha recebia alguns dos melhores elogios já escritos por um trabalho deles desde a morte de Chico Science, enquanto Transfiguração passava por espaços menores.

A turnê de Transfiguração teve que se adequar a outro projeto de Lirinha, chamado Mercadorias e Futuro. Uma montagem de teatro com texto assinado e interpretado pelo fundador do Cordel do Fogo Encantado. Todas essas mudanças – no mesmo período ele também se envolve com o projeto 3naMassa, de Pupilo, da Nação Zumbi – apontavam uma necessidade de Lirinha por mais que era pouco representada na banda.

Isso muda no ano de 2009, quando na apresentação no festival Rec-Beat que marca os 10 anos da banda o Cordel do Fogo Encantando ressurgir, enfim, transfigurado. A antiga parede percusiva divida espaço agora com uma verdadeira orquestra de sopros e uma multiplicidade de sons que jamais se esperava encontrar uma apresentação no grupo. O exagero sonoro parecia finalmente ter dado conta da necessidade cênica de Lirinha e aquela noite ficava marcada como uma garantia de mais 10 anos de banda.

Ironicamente, na verdade, marcava o começo do fim. A redução no número de apresentações a partir daquele Carnaval culmina no anuncio pós-Carnaval de 2010 de que o Cordel do Fogo Encantado encerra suas atividades. Final celebrado por alguns, mas sofrido por outros tantos. É fato de que este não representa um final artistico tanto para Lirinha quanto para seus companheiros, agora umbilicamente ligados a vários projetos musicais em Pernambuco. Mas marca o final de certamente uma das bandas mais representativas que o Brasil viu nascer na década de 90.

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32 Respostas para “Um cordel em desencanto”

  1. Gostei do que li; afora o cinismo protocolar que virou lugar comum, desde o anúncio do fim da banda – caso do Twitter, por exemplo – quem vive em Recife ou se relacionou minimamente com música na última década, deve sim considerar a importância do trabalho do Cordel.

  2. Anderson Foca disse:

    Não gostava da música, mas tinha muito respeito pela banda e pela estética que eles imprimiam ao trabalho. Talvez falte um pouco disso para maioria das bandas do indie nacional. Um pouquinho de diferencial.

  3. zubreu disse:

    afirmar que lirinha apresentou reisado, toré e coco na europa é esquecer que desde a década de 60, músicos e artistas nordestinos vem se apresentando por lá. e, no mínimo, falta de informação, desrespeito e vontade de dar algum prestígio pro moribundo.
    na década de 60 já havia exposições com apresentações de músicos de pernambuco e do ceará em Paris; inclusive estudos universitários feitos por franceses.
    abraços,
    zubreu

  4. transfiguração foi o terceiro CD da banda e não o segundo.

  5. Dewis Caldas disse:

    O Cordel representou (e de alguma forma ainda representa) a força da música feita no Brasil e suas brasilidades. Concordo com o Zubreu, quando afirma que o Cordel é fruto (ou o resultado?) daqueles músicos nordestinos que apresentaram o “folclore” musical vindo do Brasil para o mundo. E sempre achei que o futuro está aí: Bandas brasileiras com a temática brasileira; com música brasileira; com ritmos em sua essência brasileira. É como dizem: o rock, o pop, o hard e o jazz estão em todo luigar do mundo, mas o chôro, o samba, o maxixe, o reisado e até mesmo o toré, so existem por aqui. É sempre uma pena para nós brasileiros perder uma banda com essa temática.

    Ótimo texto esse sobre o Cordel, valeu Bruno.

  6. Valter Cordeiro disse:

    E lamentavel que um grupo tão representativo da cultura nordestina e precisamente pernambucana tenha chegado ao fim, mas com certeza influenciou alguns grupos como os Filhos da Estupidez que traz músicas de ótima qualidade como Nordestinagem.

Citações em outros veículos

  1. reciferock disse:

    "Análise da carreira – Um Cordel em desencanto" http://bit.ly/apmprF Por Bruno Nogueira (via @nagulha)

  2. RT @reciferock

    "Análise da carreira – Um Cordel em desencanto" http://bit.ly/apmprF Por Bruno Nogueira (via @nagulha)

  3. RT @reciferock "Análise da carreira – Um Cordel em desencanto" http://bit.ly/apmprF Por Bruno Nogueira (via @nagulha)

  4. claudia aires disse:

    claudia_aires Bela análise sobre o Cordel do Fogo Encantado por @bnogueira (via @reciferock) http://bit.ly/apmprF

  5. claudia aires disse:

    Bela análise sobre o Cordel do Fogo Encantado por @bnogueira (via @reciferock) http://bit.ly/apmprF

  6. Cordel do Fogo Encantado encerra suas atividades -> http://bit.ly/apmprF

  7. Fernando S. disse:

    RT @claudia_aires: Bela análise sobre o Cordel do Fogo Encantado por @bnogueira (via @reciferock) http://bit.ly/apmprF

  8. RT @nagulha: Um cordel em desencanto http://bit.ly/9dALQz

  9. Alê Borba disse:

    RT @nagulha: Já leu a excelente análise de Bruno Nogueira sobre o fim do Cordel? http://lc4.in/8VX3

  10. Alto Falante disse:

    RT @nagulha: Já leu a excelente análise de Bruno Nogueira sobre o fim do Cordel? http://lc4.in/8VX3

  11. Não gostamos da banda, mas taí um texto massa do @nagulha: http://lc4.in/8VX3

  12. gafieiras disse:

    "Um cordel em desencanto", texto de @bnogueira para o @nagulha – http://lc4.in/8VX3

  13. Davi Brêtas disse:

    RT @nagulha: Já leu a excelente análise de Bruno Nogueira sobre o fim do Cordel? http://lc4.in/8VX3

  14. RT @gafieiras: "Um cordel em desencanto", texto de @bnogueira para o @nagulha – http://lc4.in/8VX3

  15. RT @nagulha: Já leu a excelente análise de Bruno Nogueira sobre o fim do Cordel? http://lc4.in/8VX3

  16. André Pires disse:

    Excelente texto…"Um cordel em desencanto", de @bnogueira para o @nagulha – http://tinyurl.com/yktpc6w

  17. Já leu a excelente análise de Bruno Nogueira sobre o fim do Cordel? http://lc4.in/8VX3

  18. RT @TRIORINOROCK: RT @nagulha: O post sobre o Cotdel tem discussão ativa vai lá e dá sua opinão também: http://nagulha.com.br/um-cordel-

  19. O DILÚVIO disse:

    RT @TRIORINOROCK: RT @nagulha: O post sobre o Cotdel tem discussão ativa vai lá e dá sua opinão também: http://nagulha.com.br/um-cordel-

  20. RT @nagulha: O post sobre o Cotdel tem discussão ativa vai lá e dá sua opinão também: http://nagulha.com.br/um-cordel-em-desencanto/

  21. RT @nagulha O post sobre o Cordel tem discussão ativa, vai lá e dá sua opinão também: http://nagulha.com.br/um-cordel-em-desencanto/

  22. Mateus Costa disse:

    RT @rfochacon: @teuscosta http://bit.ly/bkdv0I olha ai..

  23. Raissa Dantas disse:

    RT @nagulha: O post sobre o Cotdel tem discussão ativa vai lá e dá sua opinão também: http://nagulha.com.br/um-cordel-em-desencanto/

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